Momentos
passam, momentos vem, a vida é uma icógnita, como me ensinastes, a ver esta
vida da forma mais pura e obscura também, os dias da minha infância em que
muitas vezes quase tinha ataques de asma só da forma como me fazias rir, os
momentos em que gozávamos um com o outro por termos “balizas” desenhada pela
falta dos dentes, é certo que eram 70 anos de diferença mas como dizias e bem
há uma altura que somos da mesma idade mas não da mesma geração, a paciência
não é a mesma, as brincadeiras são, os pensamentos também, só o que nos limita
é a rotação do nosso corpo, por os reflexos serem escassos, como é óbvio a
escassez é diferente, em ti foi pela vida desgastante que tivestes e também
pelos inúmeros silêncios que tivestes de fazer e que corroíam a tua alma, mas
claro que compensastes com os sorrisos que te faziam rasgar os músculos da
cara.
Lembras-te
do nosso muro? Aquele em que todas as tardes depois do nosso belo almoço e de uma
sesta, conversávamos horas a fio, e atirávamos pedras para ver qual chegava
mais longe, os passeios que dávamos pelo campo e a maioria das vezes em que nos
ríamos por pisar os pedaços de bosta no caminho!? As tuas pequenas palavras
sábias, na altura certa, tu soubeste-me acompanhar também como adolescente,
sentia-me envergonhado a chorar no teu ombro por desgostos, e só sabias dizer
que o vento era como o tempo, leva e traz o que merecemos ou pelo qual lutamos,
mas sabias confortar-me e cheguei a pensar que choravas propositadamente para
eu não me sentir triste, mas estavas apenas a descrever o amor da tua vida e
sabes que mais? Ainda hoje venero todos os conselhos que soubestes dar, já no
paredão quando olhávamos o alto mar, em que me dizias que já vias o teu futuro
e que o meu estava muito para lá daquela linha do horizonte, e eu realmente
acreditava, demos os passos certos, rimos o suficiente, mas não chega,
lembras-te do sonho que eu tinha em ser o Harry Potter, para te tornar num
imortal se possível para seres sempre o meu melhor amigo? O quanto gozavas
comigo e me dizias que a única coisa que não é real era ser imortal mas
garantiste-me que a magia existe, depende como cada um de nós enfrenta cada
“feitiço”, a cada lição que ouvia mais eu errava, e mais me apoiavas, era uma
sensação estranha e passados alguns erros, lá te dava razão.. mas ainda hoje
não compreendo porque fostes, tu sabes que preciso, e tu próprio me dissestes
que também precisas de mim, e que esperastes 60 anos para ter um verdadeiro melhor
amigo sangue do sangue, sei que não querias nada que eu me rebaixasse perante a
saudade e fizeste-me prometer-te que não o faria, mas faz-me falta ver-te
atender uma chamada no comando, sentir o cheiro da água de colónia, jogar
cartaz, futebol e consola contigo, passear de mãos nos bolsos, andar de trator,
tenho saudades de quando me punhas a tua boina de avessas, de quando víamos o
meu sporting e o teu benfica e acabávamos sempre as noites a beber um chá com
biscoitos, a alegria que tinhas com Ela, a forma como dançavam na cozinha
quando transmitiam os bailaricos, como me tratavam com os maiores mimos, e desfiguravam-me
o mundo cinzento que existe, a paciência cuidada com que tratavam os problemas
e emoções maiores, tenho saudades tuas, mas sei que agora estás a fazer sorrir
mais uns milhões junto Dela, Amo-vos..
To the moon and back, JotaCê
© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.
Texto registado na SPA.

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