quinta-feira, 5 de março de 2026

Consequentemente Inquieto



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Leigo, meigo, leito, aconchego, apego, sossego 
Chapa quente já não serve mais de assento.
 
Colamos pestanas sem necessidade, 
vivemos à beira do precipício 
com vista para a cidade, rasgamos 
a pele para convencer que é verdade * 

# Sinto, minto, labirinto, extinto, tinto,
pinto o futuro a branco por instinto 

Na cegueira de encontrar o amor que dói
Todos nós queimamos os desejos na fogueira 
lançamos flechas em várias direções 
na busca da mais certeira.*

Caça, passa, raça, devassa, traça 
nós não somos feitos da mesma massa. 
Peguei fogo, fiquei em brasa, 
beijei a flor, perdi a casa
herdeiro perdulário do caos
 fiz de cordeiro e virei algoz #

Tremenda, menta, rebenta, lenta, sustenta, sedenta 
verdade turbulenta numa vida que atormenta 
Ela quis ser rainha do mágico, lançar o feitiço na corda bamba, 
sem saber que sou eu quem dança neste samba. 
Valeu o preço de saltar mais alto, não faltou intenção, 
fiz papel secundário, mas revelei-me, sou eu o feiticeiro.* 

Frente, diferente, coerente, ausente, ardente, inerente, 
há pseudo vontade nas palavras mas a atitude é inconsequente. 

Criaste uma narrativa para essa merda de vida 
ainda que de forma assertiva, não foi mais que tentativa 
Salto alto para a verdade, descredibilizando a autenticidade, 
manteve a tentativa, mas era só mediocridade. # 

#
Toma tento no teu senso 
veia lenta morre tendo 
um arrepio sem consenso 
Bate leve mas não dura, solta 
a razão do obscuro sem a cura 

Giro giro, pensamentos em constante rodopio, 
deito a cabeça na almofada, há devaneios e perco o fio, 
Sentado na cadeira desta sala, já ninguém fala, 
bate saudade, só que cala
pula fora quem desiste à primeira bala. 

Olhar áspero sem sentido 
sem saberem levar a minha inspiração 
era alento no início, agora é tortura 
mostrar o que escrevo apaga a chama 
mas serei sempre o único que a procura * 

To the moon and back, JotaCê 


© José Correia, 2026. Todos os direitos reservados. 
Texto registado na SPA

quinta-feira, 3 de julho de 2025

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Morreu.
Uma bofetada de uma assentada só. Diariamente há sonhos interrompidos, planos desfeitos, cafés, jantares ou convívios que tantas vezes adiados, ficam perdidos.
Bofetadas que doem como as de hoje. Permanece sempre a questão… o que fica de cada um de nós? Empatia é isto, mesmo não conhecendo as pessoas, havia uma admiração geral pela comunidade da vida e do desporto que o rodeava, tantas alegrias deste a estranhos que te adoravam e por isso, não é surpreendente que o núcleo de família e amigos fosse tão próximo e unido.

Há algo mais injusto do que alguém que singrou na vida, na profissão, na família e chegou ao apogeu, partir assim tão prematuramente? Como é possível preencher esses espaços vazios? A resposta – não se preenche. Deleita-se uma dor nunca superada.
Que aprendamos a dar valor aos minutos que passam. Um dia é muito grande se contarmos os segundos. Na réstia da esperança fica um sentimento de que valores, risos e momentos permanecem com quem privou com as almas que partiram.

Recentemente li que “a gente nunca está atrasado para o que é nosso”. Pois é, e para a morte também é assim. Não sabemos quando é a última viagem, o último sorriso, a última música.
Trechos da vida passam-nos à frente dos olhos nos últimos segundos, diz-se. Então se é assim, partiu uma das pessoas mais felizes do mundo.
Que sejamos todos metade do ser humano que foste para os teus, o mundo ganha com isso.

Até um dia, Diogo e André.


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Insight

 


~

Quero ajudar-te mas não consigo. 
Passei pela mesma dor também, mas tão pouco serei capaz de entender se é semelhante. Se é mais ou se é menos. 
Padecemos da dor, mas não partilhamos a mesma visão. 
O sol que me irradia a pele, esfola-te a alma, o vento que se esgueira no meu cabelo não te acalma, não te leva o pensamento. 
Pensamentos retraídos ao som da leve brisa, enquanto eu caminho em bicos dos pés a dor ainda te pisa. 
Esvazia-se o meu recipiente das palavras. Calca-se um epicentro profundo, com rasgos em tecidos que nem conheço. 
Será esta a vida que mereço? 
Não questiono as minhas ações, pois elas são as mais inocentes. Há vento mas não há progresso, há chama mas falta-nos tempo. 
Gosto de mar calmo e de mar brando, doces salpicos de água salgada na cara, aqui de frente neste declive questiono-me se alguma vez houve encanto. 
Outrora, os teus olhos tinham luz, apesar de eu saber que não era a razão. Busquei, numa eterna procura desta vida, tentando chegar a ti, mas só consigo sentir desgaste. Desgaste do tempo, por tentar escalar mais estas escarpas, cada vez que me falha o pé. Desta procura resta a erosão.  
Padecemos da dor, mas não partilhamos a mesma visão. 
Adiante nesta vida, conseguirei deixar-te à sorte e largar-te a mão?


To the moon and back, JotaCê


© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.

Texto registado na SPA.


domingo, 16 de março de 2025

Oscilações





Quebram-se barreiras
Cumprem-se favores
Neste mundo a preto e branco
Eu vejo o mundo a cores

Salto de sol a sol
De margem em margem
Seca-me a boca e reluzem 
Os olhos a cada viagem 

Aguçam-se os pensamentos
Na noite caída 
Adormece a lua, 
Ergue-se o copo todos os relentos 

Secam os olhos 
Caem lágrimas 
Esfriam os sonhos 
Nestas almas impávidas 

Renascemos do chão sujo 
Sonhos à mão armada 
Por entre cantos fujo 
Mas não encontro terra sagrada 

Acendem-se tochas 
Já se vê fumo 
Inalamos a esperança 
Neste mundo mundo de consumo

Ecoam vozes pelas ruas 
Ouvem-se por cantos fundos
As preces são nulas 
Em segredos profundos


To the moon and back, JotaCê


© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.
Texto registado na SPA.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Shreads

 


Mais um toque de dádiva nos céus. O vento arrasta as folhas que restam pelo chão, ecoando o barulho de cada pedaço que me vai caindo nestas horas de desalento. Já senti mais do que quis sentir, e a cada hora me sinto mais destruído!

São anos atrás de anos, o tempo avança e os desejos que tive são cada vez mais distantes de quem os alcança…

O corpo abana lentamente nesta cadeira, onde se ouve o ranger dos linhos, e as quebras de alma nos pedaços de madeira.

Desta tristeza não caí uma lágrima, e o choro é seco, duro e intrínseco que me corrói por dentro!

Dentro de cada  paixão, tento ser pragmático no que me é possível, as tentativas tem sido muitas. Vezes sem conta que olho o céu da mesma maneira, seja ele radiante ou nublado, mas ultimamente o meu céu em dias limpos tem sido cinzento. O arraste de tanto desapontamento é penoso, tanto ou mais que por vezes nos questionamos se há algo de errado connosco.

Eu, o apologista máximo de que o amanhã é um novo dia, começa a deteriorar-se, pois as pessoas não sabem o que querem, falta empatia e vontade de abraçar a honestidade, sinceridade e transparência de ser feliz no seu próprio casulo, sem preocupação com a aparência.

Tenho sido um Mr. Turner na vida, com compostura, levando o barco para onde ruma a maré, seja ela alta ou baixa, mas nesta descida amena, sinto-me cada vez mais um Jack,, onde a bússola não tem direcção, já nem aponta para o rum, apenas para o vazio onde eu queria ser dos felizes, que  procura destinos, mas não vê nenhum.

 

To the moon and back, JotaCê


© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.
Texto registado na SPA.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Contraluz


Por vezes questiono-me em que direção caminham as nossas crenças, todos os sonhos, todas as sensações que nos aquecem a existência e esfriam os pensamentos quando estes, apenas residem no casulo da alma, até se realizarem ou saltarem de lá, numa golpada. A convicção e o desejo de nos realizarmos, é o que nos leva a percorrer os caminhos mais estreitos ou rasurados, com a ambição de chegarmos lá… lá tão longe, onde o sol se esconde. 

Somos setas enjauladas nos nossos sonhos, e percorremos campos verdes, com o cheiro da natureza a cintilar pelas narinas, numa corrida voraz em direção a um sol distante... somos crianças, quando nada nos impede de chegar lá, por muito difícil que seja o caminho, quando não há uma esperança quebrada, há uma alma realizada. Então porque vejo tantos lábios a saborear o sal das lágrimas? Onde paira o mundo radiante onde podemos ser nós, onde não temos de nos esconder perante olhares alheios? 

Devíamos ser todos graúdos enérgicos, com fraquezas, mas com o foco ligado a percorrer os nossos caminhos no sentido da luz... mesmo nos dias cinzentos, deveria sempre residir a luz, a perseverança, o ânimo leve. Deveríamos todos manter o nosso foco de brilho, mas creio que há almas que deixam que se lhes apague a maravilhosa luz que os irradia. Se não é para saltarmos nas poças, dançar na chuva, correr nos campos verdes com pujança em direção ao sol, com as gotas de orvalho a humedecer as nossas maçãs do rosto… Qual é a direção que damos aos sonhos que residem neste casulo? 

To the moon and back, JotaCê


© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.
Texto registado na SPA.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Slight

 



(Março,2023)


Hoje é o dia, hoje desço ao fundo do poço, ao fundo escuro que tanto tenho medo, que tanto tenho evitado. Obscuro frio e negro, sinto que é a primeira vez que o visito.

São 2h23, e não sei quem sou, não me reconheço, apenas tumultos, não há forças. Sempre respirei a convicção que poucas coisas me iriam abater, mas afinal, sou uma folha de papel. Foi tão fácil e eu, não só era protagonista, como também produtor, deixei acontecer e deixei-me ir num pedaço de madeira rio abaixo. Vejo da janela do meu quarto o mundo lá fora, e não o entendo, não me sinto um destes pedestres, a minha alma orbita por outra galáxia.

A história que quis contar e seguir, não foi nos trilhos que desenhei, esperei tantos anos e no momento, faltou-me astúcia de cortar o rastilho, e agora? Estou frágil, e sem rumo, e, sei que tenho de me reerguer, mas caramba, não mereci, nem fiz nada para passar por esta chuva grossa. Salvei-te, fui herói, mas morri.. não culpo nada nem ninguém, mas arrependo-me. por tamanha ingenuidade e cegueira amorosa, não houve cama para amar mais e logo num inicio, o amor, que há tanto sentia, ardeu demais e transformou-se em raiva, em furacão, em calvário. 

Fui o melhor possível nos meus limites, mas no final de tudo, esta história foi Titanic, fui só uma tábua de salvação, apenas servi para não te deixar cair, fui Jack e tu Rose, fui feliz por te ver à tona, mas.. Fui eu, que com todas as minhas forças e sonhos, foi ao fundo, e continuei a ir durante quilómetros, sem me aperceber, sentindo apenas, que fomos laços certos em nós errados, e o amor morreu numa praia de Setembro.  

São 2h23 e corre nos meus ouvidos “Quem me leva os meus fantasmas”, numa doce e leve depressão, que me lava a alma, e apesar de ser uma das melhores fases da minha vida a nível pessoal, não consigo aproveitá-la como queria, apenas sobrevivo, o meu corpo continuou, mas a minha alma ficou no verão de 21, e só quero que ela volte até mim. Preciso da minha alma de volta, preciso da energia contagiante que sempre tive, da incurável veia romântica, da inspiração para escrever, da força para encarar o dia-a-dia, sem sentir angústia, de ter dado tudo para ser feliz.

Deixo hoje, finalmente o peso que vai em mim nestas palavras, ficando apenas cinzas, deste voo que não soube voar, e olhando de cabeça erguida para a frente, com a plenitude de que fui tudo e fiz de tudo para ser diferente e único.

Queria ter a capacidade de reescrever esta página de novo podendo apenas apagá-la de mim, não queria ser herói, não queria ter lido, nem ter sido protagonista nem produtor, queria apenas ter continuado a ser o miúdo, que olhava da janela do quarto e via o mundo a cores, e com um brilho nos olhos, sentia a felicidade dos pedestres, sem a invejar.


To the moon and back, JotaCê


© José Correia, 2025. Todos os direitos reservados.

Texto registado na SPA.